Case 02 · Inovação
Quando conteúdo vira produto: construindo um novo motor de crescimento
- 53%
- Retenção em D+1
- 25%
- Retenção em D+7
- +2,87%
- Aumento em conversão
- 1M+
- Vídeos assistidos por dia
De uma mudança de comportamento a uma oportunidade de produto
Durante a ascensão do TikTok e do Reels, comecei a observar como o consumo de vídeos curtos, verticais e em sequência estava mudando a forma como as pessoas navegavam por conteúdo. O formato reduzia a necessidade de escolher o que assistir a cada momento e criava uma experiência muito mais contínua e imersiva. O Sexlog já tinha algo importante para aproveitar: uma comunidade produzindo vídeos dentro da própria plataforma.
Os vídeos já existiam, mas ainda não funcionavam como ponto de partida para descobrir pessoas. Na experiência predominante, alguém encontrava um perfil e só depois conhecia os conteúdos publicados por aquela pessoa. Enxerguei a oportunidade de inverter essa lógica e usar o conteúdo como porta de entrada para descoberta.
A oportunidade não era simplesmente trazer um formato popular para dentro do Sexlog. Era reorganizar um comportamento que já existia e testar se uma experiência contínua de descoberta poderia ampliar a exploração, aproximar pessoas e aumentar a percepção de valor da comunidade. Foi dessa hipótese que nasceu o Espiadinhas.
O problema
Os vídeos já existiam no Sexlog, mas apareciam como consequência da visita a um perfil. O problema que eu quis resolver era o inverso: usar o conteúdo como ponto de partida para descobrir pessoas, ampliar a exploração e aumentar a percepção de valor sem prejudicar a conversão ou outras jornadas centrais.
Minha atuação
Identifiquei essa oportunidade, idealizei o Espiadinhas e liderei a transformação da ideia em uma hipótese testável. Com PO e Dados, defini critérios de sucesso e proteção, acompanhei o experimento e conduzi as decisões de distribuição, evolução e escala.
O que mudou
O resultado foi uma nova experiência incorporada ao produto e disponibilizada para toda a comunidade. A narrativa a seguir mostra as decisões que sustentaram essa evolução e os resultados apresentados na capa.
A oportunidade: transformar conteúdo em descoberta contínua
Vídeos não eram uma novidade dentro do Sexlog. A plataforma já permitia que os usuários publicassem esse tipo de conteúdo, mas sua função dentro da experiência era diferente. A área pública de vídeos tinha um papel importante na estratégia de SEO e geração de tráfego. Já entre usuários autenticados, grande parte do consumo acontecia dentro dos próprios perfis.
Na prática, primeiro alguém encontrava uma pessoa e entrava em seu perfil. Só depois descobria os vídeos publicados por ela. O conteúdo vinha depois da descoberta. Quando comecei a observar a ascensão do TikTok e do Reels, percebi uma oportunidade de inverter essa lógica:
“E se o vídeo pudesse ser o ponto de partida para descobrir pessoas?”
O Sexlog já possuía o principal ativo necessário para testar essa ideia: uma comunidade que produzia conteúdo em vídeo. O que faltava era uma experiência capaz de organizar esse conteúdo de uma forma mais contínua e imersiva, reduzindo o esforço entre assistir a um vídeo e descobrir o próximo.
A partir daí, comecei a conectar essa oportunidade a um problema que eu queria atacar no produto: tempo de permanência. Minha leitura era que, se a descoberta exigisse menos esforço e sempre houvesse um novo conteúdo ou uma nova pessoa para conhecer, poderíamos prolongar naturalmente a exploração dentro do Sexlog. A hipótese, portanto, era uma só:
“Se transformarmos os vídeos da comunidade em uma experiência contínua de descoberta de pessoas e conteúdos, os usuários terão mais motivos para continuar explorando o Sexlog por mais tempo.”
O formato fazia parte da hipótese
Antes mesmo de desenhar toda a experiência, defini duas características que os vídeos precisariam ter: orientação vertical e duração máxima de um minuto. Essas escolhas eram intencionais. O formato vertical permitia ocupar melhor a tela e criar a sensação de imersão que eu buscava. Já os vídeos curtos reduziam o esforço necessário para consumir cada conteúdo e tornavam mais natural seguir para o próximo.
Também adotamos padrões de interação que já estavam se consolidando nesse tipo de experiência, como autoplay, navegação contínua, likes e comentários. A referência em TikTok e Reels era deliberada. Eu não via sentido em reinventar padrões que plataformas com escala global já estavam validando. O desafio estava em entender se aquele comportamento também encontraria espaço dentro da dinâmica do Sexlog.
Porque, aqui, assistir ao vídeo não era o objetivo final. Um vídeo poderia despertar interesse por uma pessoa, levar a uma visita ao perfil, gerar uma interação e iniciar uma nova conexão. O conteúdo funcionaria como uma nova porta de entrada para aquilo que já movia o produto.
Eu também sabia o que poderia invalidar a ideia
Uma experiência como essa poderia gerar curiosidade simplesmente por ser nova. Por isso, uma boa primeira impressão não seria suficiente. Antes do teste, eu já tinha clareza sobre alguns sinais que fariam a aposta perder força:
baixa adoção;
nenhuma mudança relevante nos sinais relacionados à permanência;
impacto negativo sobre conversão.
O cenário oposto também era verdadeiro. Se as pessoas experimentassem o Espiadinhas, continuassem consumindo e, principalmente, voltassem espontaneamente depois, teríamos um sinal muito mais forte de que a experiência entregava valor além da novidade.
Essa distinção era importante. Eu não queria validar se as pessoas clicariam em algo novo. Queria entender se estávamos criando um comportamento que merecia ganhar espaço permanente dentro do produto. Foi a partir desses critérios que decidimos não lançar o Espiadinhas diretamente para toda a base.
Primeiro, a ideia precisaria provar seu valor em um experimento.

Desenhando um experimento para separar curiosidade de valor real
A ideia parecia promissora, mas eu não queria confundir novidade com valor. Uma experiência inspirada em TikTok e Reels naturalmente poderia despertar curiosidade nos primeiros dias. Isso, sozinho, não seria suficiente para justificar incorporá-la definitivamente ao produto.
Junto ao PO e ao time de Dados, estruturamos a primeira versão como um teste A/B. Metade da base permaneceu no grupo de controle e a outra metade passou a ser exposta aos gatilhos do Espiadinhas.
Antes do teste, eu já tinha algumas métricas que considerava essenciais: adoção, retenção, tempo de permanência e conversão. Outras análises foram sendo adicionadas durante a construção do experimento, conforme começamos a entender melhor quais comportamentos poderiam indicar valor real e quais métricas precisavam funcionar como proteção para o negócio.
Um desafio apareceu logo na distribuição da feature. A navegação principal do Sexlog já estava ocupada. Não havia espaço na navbar ou no header para adicionar um novo destino sem remover ou sacrificar algo que já existia e funcionava. Como ainda estávamos validando a ideia, não faria sentido abrir mão de uma área consolidada para dar destaque permanente a uma hipótese.
Por isso, escolhemos começar com dois pontos de entrada: o Novidades¹ e a página de vídeos. Assim, conseguíamos expor a experiência para uma parcela relevante dos usuários sem alterar a estrutura principal de navegação. O teste também permitiria entender como o contexto e a força de cada gatilho influenciavam a descoberta da feature.
Os primeiros dados mostraram uma adoção bastante forte. Quando comparávamos o Espiadinhas com outras funcionalidades do Sexlog, seu nível de uso ficava próximo ao do Mensagens, uma das experiências centrais do produto. Entre assinantes, a adoção era ainda maior.
Esse comportamento entre assinantes não foi exatamente uma surpresa. A privacidade dos vídeos no Sexlog é definida pelos próprios usuários. Parte do conteúdo pode ser aberta para toda a comunidade, enquanto outros vídeos ficam disponíveis apenas para assinantes. Por isso, já esperávamos que esse público encontrasse uma oferta maior de conteúdo e, consequentemente, tivesse mais motivos para explorar a experiência.
Também observamos uma diferença entre os dois pontos de entrada. A página de vídeos apresentou adoção menor, e nossa leitura foi que o gatilho utilizado ali era menos chamativo do que o apresentado no Novidades. Isso ajudou a mostrar desde cedo que a distribuição da feature teria um papel importante na sua evolução.
Mas adoção respondia apenas à primeira pergunta. As pessoas poderiam entrar porque o formato era novo. O que eu realmente queria descobrir era se elas encontrariam valor suficiente para voltar.
Por isso, começamos a acompanhar retenção e reuso da própria funcionalidade. Os primeiros números de D+1 já eram altos e se aproximavam de experiências consolidadas do Sexlog, como Radar² e Livecam³. Ao mesmo tempo, tivemos cuidado para não interpretar esses dados cedo demais, porque naquele momento a feature ainda não havia completado duas semanas de exposição.
Medir permanência era mais difícil do que parecia
Minha hipótese original estava diretamente ligada ao tempo que os usuários permaneceriam no Sexlog. Seria natural, portanto, olhar para tempo de sessão e tentar provar que o Espiadinhas havia aumentado esse indicador.
O problema é que a métrica disponível não isolava o uso da feature. Uma sessão que passava pelo Espiadinhas também poderia conter visitas a perfis, mensagens, buscas e diversas outras páginas. Não seria correto atribuir todo aquele tempo à experiência.
A partir dessa discussão, começamos a considerar outras aproximações, como minutos assistidos, e a olhar o experimento por um conjunto de sinais em vez de depender de uma única métrica.
Adoção mostrava se as pessoas experimentavam. Retenção e reuso indicavam se encontravam motivos para voltar. O consumo de vídeos ajudava a entender a intensidade desse comportamento. E conversão funcionava como uma métrica de proteção importante: a nova experiência não poderia melhorar engajamento às custas do principal modelo de receita do produto.
O objetivo não era provar que a minha ideia estava certa. Era entender se o comportamento dos usuários justificava dar mais espaço para ela dentro do Sexlog.

Quando curiosidade começou a virar hábito
Os primeiros resultados eram animadores, mas minha leitura naquele momento ainda era de que o Espiadinhas tinha potencial. Como eu havia idealizado a experiência, existia também um risco que eu queria evitar: olhar apenas para os números que confirmavam minha própria hipótese. Por isso, preferi esperar o experimento ganhar mais dados e analisá-lo de maneira mais ampla antes de defender uma expansão.
Nenhuma métrica isolada seria suficiente. Adoption poderia ser explicado pela novidade. Uma boa retenção inicial poderia mudar conforme o efeito de lançamento diminuísse. Conversão positiva poderia ser apenas variação estatística. O que começou a aumentar minha confiança foi a combinação desses sinais.
À medida que o acompanhamento avançava, o comportamento de reuso se tornou especialmente relevante. A retenção chegou a 53% em D+1 e 25% em D+7, índices considerados muito altos quando comparados a outras experiências do Sexlog.
Os dados de recorrência foram ainda mais surpreendentes para mim. 95% das pessoas que utilizaram o Espiadinhas voltaram pelo menos uma vez, e 85% voltaram a utilizar a experiência pelo menos dez vezes. O reuso chegou a superar o da Livecam, até então uma das referências internas nesse tipo de comportamento.
Eu esperava que uma experiência de consumo contínuo pudesse estimular recorrência, mas não imaginava uma frequência tão alta. O volume de consumo reforçava essa leitura. O Espiadinhas passou a registrar mais de 1 milhão de visualizações de vídeos por dia.
Isso não resolvia completamente a questão original sobre tempo de permanência. Continuávamos com o cuidado de não transformar volume de vídeos ou tempo de sessão em uma relação causal que nossas métricas ainda não conseguiam provar.
Mas o conjunto de sinais criava uma perspectiva muito boa. As pessoas estavam descobrindo a experiência, voltando para utilizá-la, consumindo muitos vídeos e fazendo isso repetidamente. Estávamos observando um comportamento que ia além da curiosidade inicial.
De validar para distribuir
Nesse ponto, a discussão deixou de ser apenas se a ideia funcionava e passou a ser quanto espaço ela deveria ganhar dentro do produto.
A decisão de expandir a distribuição foi tomada por mim junto ao time que estava trabalhando no projeto. Os resultados eram consistentes, o experimento estava saudável e os feedbacks dos clientes não indicavam um risco que justificasse continuar limitando excessivamente a exposição.
No início, havíamos sido conservadores porque não queríamos sacrificar espaços importantes da navegação principal para validar uma hipótese. Com os novos dados, essa cautela já podia diminuir.
Adicionamos então novos pontos de entrada no Recomendados⁴ e no Explorar⁵, aumentando as oportunidades para que os usuários descobrissem o Espiadinhas dentro de jornadas que já tinham relação com exploração de pessoas e conteúdo.
A expansão também trouxe atenção para detalhes da experiência que se tornavam mais importantes conforme o uso crescia. Um deles era o comportamento de voltar. Ao assistir a um vídeo, o usuário poderia se interessar pela pessoa, abrir seu perfil e explorar outras informações. Para mim, havia uma premissa importante nesse fluxo: se ele decidisse voltar, precisava retornar exatamente ao ponto em que havia parado.
Não fazia sentido fazer alguém navegar por uma sequência de vídeos, entrar em um perfil e depois perder todo o contexto ao retornar. Por isso, uma das evoluções previstas para o fluxo foi tornar esse retorno mais inteligente, levando a pessoa de volta ao último vídeo assistido.
Esse detalhe era pequeno perto dos grandes números do experimento, mas importante para o tipo de experiência que eu queria construir. Uma navegação contínua só parece contínua quando o produto respeita o contexto do usuário.
Escalar também trouxe novos custos
O crescimento do consumo levantou outra preocupação: banda. Mais de um milhão de visualizações diárias significavam também um aumento real no volume de vídeo entregue pela plataforma. Era necessário acompanhar esse custo para garantir que o sucesso de engajamento não criasse um problema desproporcional de infraestrutura.
O consumo de banda aumentou, mas não a ponto de comprometer a viabilidade da experiência. Quando colocávamos o custo ao lado dos sinais de adoção, recorrência, consumo e impacto potencial sobre o negócio, o Espiadinhas continuava fazendo sentido.
A decisão de escalar, portanto, não aconteceu porque uma métrica ficou verde. Ela aconteceu porque o comportamento observado em diferentes dimensões começou a contar a mesma história.
As pessoas não estavam apenas experimentando o Espiadinhas. Elas estavam voltando.

Quando engajamento começou a aparecer na conversão
Minha hipótese inicial estava ligada principalmente ao tempo de permanência. Eu acreditava que, se conseguíssemos fazer as pessoas descobrirem mais perfis e conteúdos de forma contínua, aumentaríamos a percepção de valor do Sexlog.
Conversão não era o objetivo primário do experimento, mas fazia parte das métricas que eu acompanharia desde o início. Ela quase sempre funciona como guardrail nos meus testes. Uma nova experiência pode melhorar um comportamento específico, mas isso perde importância se, ao mesmo tempo, prejudicar uma parte essencial do negócio.
No caso do Espiadinhas, essa preocupação era ainda mais relevante. Estávamos criando uma nova forma de consumir conteúdo dentro de um produto cujo principal modelo de receita depende de assinaturas. Por isso, além de adoption, retenção e reuso, acompanhamos se a experiência afetava negativamente outras jornadas e indicadores importantes.
O resultado acabou trazendo uma surpresa positiva. O grupo exposto ao Espiadinhas apresentou um aumento de 2,87% nas assinaturas em relação ao grupo de controle.
Eu já tinha a intuição de que aumentar o tempo de permanência poderia movimentar a engrenagem de conversão, mas isso ainda era uma relação que precisávamos tratar com cuidado.
O teste apresentava 82% de chance de vitória, abaixo dos 95% que utilizávamos como referência para considerar o resultado estatisticamente significativo. Além disso, nossa experiência com outros testes mostrava que alterações em conversão costumavam levar mais tempo para aparecer com clareza.
Então eu não tratei os 2,87% como prova de que o Espiadinhas aumentava assinaturas. Tratei como um sinal positivo dentro de um conjunto de resultados que já vinha apontando na mesma direção.
Percepção de valor antes da conversão
Minha leitura sobre esse comportamento era relativamente simples: as pessoas pagam pelo que percebem que vale a pena. Ao aumentar a quantidade de conteúdo disponível para descoberta, mostrar mais pessoas da comunidade e criar uma experiência em que sempre havia algo novo para explorar, o Espiadinhas ajudava a tornar o tamanho e a atividade do Sexlog mais visíveis.
O usuário não precisava imaginar que existiam milhares de perfis produzindo conteúdo. Ele passava a experimentar isso de forma contínua.
A própria dinâmica dos vídeos também ajudava a conectar consumo e monetização. O Espiadinhas combinava conteúdos abertos com vídeos restritos a assinantes. Para quem ainda não pagava, alguns desses conteúdos apareciam bloqueados, acompanhados de um CTA para assinatura.
Isso criava uma relação mais natural entre descoberta e conversão. O bloqueio não aparecia isoladamente dizendo apenas que uma determinada funcionalidade exigia pagamento. Ele surgia depois que o usuário já estava navegando, consumindo conteúdos e descobrindo pessoas. A assinatura passava a representar acesso a algo cujo valor já havia começado a ser percebido.
Para mim, essa diferença era importante. Em vez de tentar empurrar uma compra antes da experiência, estávamos permitindo que parte da própria experiência explicasse por que a assinatura poderia valer a pena.
Um resultado precisava ser saudável para o restante do produto
Desde o início, também existia uma preocupação com canibalização. Uma experiência de consumo contínuo poderia aumentar o uso do Espiadinhas e, ao mesmo tempo, reduzir visitas a perfis, mensagens, outras áreas importantes ou até afetar negativamente a conversão.
Por isso, acompanhamos o comportamento das demais jornadas durante o experimento. Não faria sentido considerar a feature um sucesso se seu crescimento estivesse acontecendo às custas de partes mais importantes do Sexlog.
Os sinais que acompanhamos não mostraram uma deterioração que justificasse interromper a evolução da experiência. Somando isso à adoção, retenção, recorrência, volume de consumo e ao sinal positivo de conversão, chegamos a um ponto em que manter metade da base fora da experiência deixou de fazer sentido.
O direcionamento foi encerrar o A/B e disponibilizar o Espiadinhas para toda a comunidade. Não tomamos essa decisão porque uma métrica isolada havia atingido determinado valor. A confiança veio do conjunto. A experiência era usada, as pessoas voltavam, o consumo continuava alto, não identificávamos danos relevantes em outras jornadas e a conversão apontava na direção positiva.
Para mim, isso resumia bem o que estávamos buscando:
“Criamos algo que fazia sentido para as pessoas e para o negócio. Um equilíbrio entre entregar mais valor e capturar parte desse valor.”
O sucesso abriu uma nova pergunta
Depois da expansão, minha atenção começou a mudar. A primeira pergunta havia sido: as pessoas querem essa experiência? Os resultados já indicavam que sim. A próxima passou a ser: como podemos transformar esse comportamento em uma oportunidade ainda maior de receita sem prejudicar aquilo que fez o Espiadinhas funcionar?
A partir daí, começamos a experimentar novas formas de apresentar conteúdos restritos e diferentes níveis de frustração e estímulo à assinatura. Criamos novos grupos de teste com abordagens diferentes, tentando encontrar um equilíbrio entre manter o fluxo de descoberta agradável e tornar mais evidente o valor de ser assinante.
Não tenho os resultados consolidados dessa fase disponíveis para este case, então não usaria esses experimentos como evidência de impacto. Eles são relevantes por outro motivo: mostram como a validação inicial mudou a natureza das perguntas que estávamos fazendo.
Primeiro precisávamos provar que o comportamento existia. Depois, podíamos começar a entender como transformá-lo em uma nova alavanca de negócio.

O trabalho começou antes da feature existir
Quando o Espiadinhas começou a apresentar resultados fortes, ficou claro para mim e para o time que ele deixaria de ser apenas um experimento. Mas uma parte importante dessa história aconteceu antes mesmo de existir uma interface para testar.
Quando tive a ideia, o Sexlog já possuía uma grande quantidade de vídeos publicados pela comunidade. O problema era que não tínhamos uma forma estruturada de identificar quais deles atendiam às duas condições que eu considerava essenciais para a experiência: orientação vertical e duração de até um minuto. Antes de apresentar a proposta ou conseguir espaço no roadmap, pedi ao time de Infraestrutura que começasse a identificar e taguear esses vídeos.
Foi uma decisão pequena do ponto de vista de implementação, mas importante para viabilizar a ideia. Se avançássemos com o projeto, eu queria que já existisse uma base de conteúdo compatível com o formato que imaginava. Também nos permitiria entender melhor o tamanho daquela oportunidade antes de investir na construção da experiência.
Essa antecipação foi especialmente importante porque, naquele momento, a ideia ainda não era uma aposta óbvia para todos. Eu precisava construir confiança na hipótese e criar condições para que o time pudesse avaliá-la de forma concreta, em vez de depender apenas da minha convicção sobre uma tendência de mercado.
Conteúdo era o meio, não o fim
Conforme o Espiadinhas evoluiu, uma preocupação permaneceu desde o início: não poderíamos tratar o Sexlog como uma plataforma de vídeos genérica.
O produto atende pessoas em todo o Brasil, e sua principal proposta continua sendo criar condições para que conexões aconteçam. Mostrar continuamente conteúdos de pessoas que dificilmente poderiam se encontrar poderia gerar consumo, mas reduzir a relação da experiência com o propósito do produto.
Isso não significava transformar localização em uma regra absoluta. O protagonista do Espiadinhas continuava sendo o conteúdo. Mas relevância precisava considerar também quem estava por trás daquele conteúdo e a possibilidade de aquela descoberta fazer sentido para quem assistia.
Essa relação era importante porque eu sempre enxerguei conteúdo como uma espécie de moeda social dentro do Sexlog. Um vídeo pode entreter, mas também apresenta uma pessoa, desperta curiosidade, leva a uma visita ao perfil e pode iniciar uma nova interação. O conteúdo não substitui a conexão. Ele cria novas portas de entrada para ela.
Por isso, a lógica de distribuição nunca foi simplesmente mostrar os vídeos com mais likes ou os conteúdos mais recentes. Construímos uma combinação de sinais para equilibrar relevância, descoberta e renovação do feed, sem expor publicamente os detalhes do algoritmo.
Também reservávamos espaço para conteúdos recém-publicados. Além de evitar que apenas vídeos já populares continuassem acumulando distribuição, isso criava um mecanismo de retroalimentação. Novos vídeos tinham oportunidade de ganhar visibilidade, o que ajudava a incentivar a própria comunidade a produzir mais conteúdos compatíveis com o formato do Espiadinhas.
A experiência começava, assim, a criar seu próprio ciclo: mais conteúdo adequado ao formato → mais descoberta → mais consumo → mais incentivo para novas publicações.
De projeto para uma experiência contínua
Desde o início, a execução operacional ficou concentrada em um time de produto específico, enquanto eu mantinha a gestão das prioridades dentro do roadmap geral.
Depois que encerramos o experimento inicial, a discussão já não era mais se deveríamos manter o Espiadinhas. O comportamento dos usuários e os feedbacks recebidos deixavam claro que a experiência havia encontrado espaço dentro do produto.
Isso também fazia sentido olhando para a composição da comunidade. Aproximadamente 70% da nossa base é formada por homens, um público que historicamente apresenta um consumo maior de conteúdo dentro da plataforma. O Espiadinhas conseguia aproveitar esse comportamento sem criar uma experiência desconectada da descoberta de pessoas.
A partir daí, o trabalho passou a ser de evolução contínua. Algoritmo, interface, autoplay e otimizações de performance passaram a receber atenção conforme aprendíamos com o uso em escala.
O que mais me marcou nessa passagem de experimento para core não foi uma funcionalidade específica que adicionamos depois. Foi perceber que uma ideia que inicialmente exigiu convencimento havia produzido comportamento suficiente para mudar a própria discussão.
No começo, eu precisava explicar por que valia a pena testar. Depois, a pergunta passou a ser como continuar evoluindo algo que os usuários já demonstravam querer usar.
Para mim, esse é um dos pontos mais importantes do case. O trabalho de produto começou antes da primeira tela, identificando uma mudança de comportamento no mercado, preparando os dados e o conteúdo necessários para tornar a hipótese testável e criando espaço para que uma ideia ainda incerta pudesse provar seu valor.

O que esse experimento mudou na minha forma de construir produto
Olhando para o Espiadinhas, é difícil apontar uma única decisão como responsável pelo resultado. O acerto esteve na combinação entre observar um movimento de mercado, entender como aquele comportamento poderia se conectar ao Sexlog, preparar os ativos necessários antes mesmo de existir uma interface, construir uma hipótese clara, convencer o time a apostar nela, testar com cuidado e só então escalar.
Foi um processo em que cada etapa aumentava um pouco mais nossa confiança. Por isso, olhando hoje para trás, não vejo uma mudança importante que faria na forma como conduzi o projeto. O processo cumpriu bem o papel que eu esperava: começou com uma ideia ainda incerta, criou condições para que ela pudesse ser testada e deixou o comportamento dos usuários determinar quanto espaço aquela aposta merecia ganhar.
O aprendizado maior veio de como passei a apresentar novas ideias depois disso.
Uma boa ideia precisa mostrar para onde pode chegar
No início do Espiadinhas, eu tinha uma imagem bastante clara do tipo de experiência que queria construir, mas nem todo mundo conseguia enxergar imediatamente o mesmo potencial. Isso me ensinou que apresentar apenas a primeira versão de uma ideia pode limitar a discussão.
Hoje, quando proponho uma aposta mais exploratória, procuro mostrar não apenas o MVP que podemos construir agora, mas também um vislumbre de onde aquela experiência pode chegar caso a hipótese se confirme.
O MVP continua pequeno. A diferença é que existe um horizonte. Isso ajuda as pessoas a entenderem por que vale a pena investir naquela primeira etapa e qual oportunidade estamos tentando validar no longo prazo.
Não existe mérito em reinventar algo que já funciona
O Espiadinhas também mudou a maneira como observo outros produtos. Instagram, TikTok e outras plataformas sociais trabalham com equipes globais, milhões ou bilhões de usuários e uma capacidade de experimentação muito maior do que a nossa. Esses produtos testam constantemente novos padrões de interação, descoberta, criação e consumo.
Não vejo vantagem em ignorar esse aprendizado e tentar recriar tudo do zero. O trabalho de produto, para mim, está em desenvolver um olhar mais criterioso para esses movimentos.
Não se trata de ver uma feature funcionando em outro aplicativo e simplesmente reproduzi-la. A pergunta é outra: Existe algum comportamento sendo validado lá fora que também resolve um problema real dentro do meu produto?
No caso do Espiadinhas, o formato de vídeos verticais e consumo contínuo já estava sendo validado em escala pelo mercado. O que precisávamos descobrir era se aquele comportamento encontrava espaço dentro de uma comunidade cuja dinâmica, objetivos e modelo de negócio eram completamente diferentes. Foi essa adaptação que tornou a referência relevante.
Às vezes, inovar é enxergar melhor o que já existe
Talvez esse seja o aprendizado mais importante do projeto. O Espiadinhas não nasceu da criação de um novo tipo de conteúdo, de uma nova rede ou de uma nova funcionalidade fundamental para o Sexlog.
Os vídeos já existiam. Os usuários já publicavam. As pessoas já consumiam esse conteúdo. O ativo estava dentro do produto, mas era pouco explorado.
O que fizemos foi reorganizá-lo em uma experiência diferente. O conteúdo deixou de ser algo encontrado principalmente depois de entrar em um perfil e passou também a funcionar como porta de entrada para descoberta de pessoas.
Essa mudança de perspectiva transformou um ativo existente em uma experiência que passou a ter um papel relevante dentro do produto. Para mim, inovação nem sempre significa adicionar mais coisas. Às vezes, significa perceber que algo valioso já está diante de você e encontrar uma forma melhor de conectá-lo ao comportamento das pessoas.
O aprendizado que ficou
O Espiadinhas reforçou uma forma de pensar produto que levo para outras decisões. Observar tendências é importante, mas conhecer profundamente seu próprio produto é o que permite separar uma moda de uma oportunidade. Quando essas duas coisas se encontram, uma mudança de comportamento que está acontecendo no mercado pode revelar possibilidades que já estavam escondidas dentro do próprio produto.
“Observar com atenção os movimentos de mercado e entender profundamente como seu produto funciona pode revelar experiências muito valiosas a partir de ativos que você já possui, mas ainda explora pouco.”
No fim, essa talvez seja a melhor síntese do Espiadinhas. Não criamos valor adicionando mais uma funcionalidade ao Sexlog. Encontramos uma nova maneira de transformar algo que já existia em descoberta, consumo, interação e oportunidade de negócio.
Fim do case